RUBENS FIGUEIREDO: MANCHAS DE SILÊNCIO

 

Carla Cristina Fernandes Souto –UFRJ

 

 

Vivemos um momento político, social e literário sem muitas perspectivas. Que textos serão produzidos numa era cuja ação menos praticada é ler? Como pretendemos dar conta de nossa função crítica se mal entramos em contato com alguma parte ínfima da produção cultural do fim do século? O que fazer com os textos consagrados ou redescobertos sobre os quais muito resta a dizer e que nos encantam através dos tempos? Para muitos, este é um momento cultural farto e fraco, com pouca genialidade. Será? Ou será que todos os períodos não passaram por este julgamento de seus coetâneos. Decerto não se pode fechar os olhos e fingir que não surgem sempre novas produções, merecedoras da mesma atenção com que nos debruçamos sobre o cânone. É inclusive uma obrigação, pelos menos para os que atuam como professores, tentar estar sempre atualizados com relação aos setores de criação cultural.

O presente trabalho pretende, através da leitura do conto de Rubens Figueiredo, “As palavras secretas”, identificar nas narrativas pós-modernas uma questão que se multiplica: personagens que se transformam em outros, seres que se desdobram, procedendo a uma espécie de metamorfose existencial. Para tanto, buscamos entender como funcionam as associações entre textos diversos, tanto teóricos quanto literários, questionando assim o lugar e a própria identidade da teoria da literatura defronte ao nosso relacionamento com as produções culturais contemporâneas. Assim, as obras teóricas puderam ter quase que a mesma função, em alguns momentos, daquilo que costumamos chamar de literário, denunciando a extrema transitividade de toda posição, ocupada tanto pelo sujeito quanto pelo objeto de suas preocupações. Porque a trajetória que vai provocar as indagações deste estudo, começou a se desenhar nos “restos de consoantes” com que tais obras marcaram nossa posição crítica diante da pós-modernidade. Deixa-las falar de outro topos foi a solução encontrada. Talvez não a mais acadêmica, mas aquela capaz de reordenar no papel “as manchas de silêncio”.

O conto “As palavras secretas” inicia com a seguinte observação: “O eremita se alimenta de neblina.”[1], tal afirmação pontua todo o texto, dando início ao percurso do menino Matias em relação ao mundo das descobertas futuras. O fato da narração ser em terceira pessoa não interfere na postulação de que se trata de uma narrativa de autoconhecimento e não de acontecimento.

Muito mais do que fatos, o que se mostra é a transformação interior da personagem Matias. O processo narrativo é fundamental, porque a cada personagem que o foco é dirigido corresponde um universo novo, que pode ser por este meio vislumbrado. Não é um narrador tradicional, onisciente e onipresente, que temos aqui, mas um para quem a sua própria criação parece ir se desvelando. Ele consegue assim calar a própria voz, deixando-nos conduzir pelo olhar do outro: “Quando o pai tentou desenrolar os papéis, que teimavam em se enroscar em torno dos seus dedos, a mãe percebeu que se tratava de algo pior do que criar uma cobra dentro de casa.”[2]

Com relação à personagem Matias, já se evidencia uma diferença entre o seu modo de pensar e de ser em relação a todas as outras, como uma pista que fosse sendo deixada e viesse se desenvolvendo lentamente. Mesmo nas passagens em que ele ainda era um menino, nota-se, em meio aos pensamentos infantis, conclusões sobre as coisas absolutamente maduras e desconcertantes, como se o narrador mostrasse os pensamentos adultos do ser narrado refletindo sobre suas investigações de criança, dando a mesma dimensão de afastamento temporal de uma narrativa em primeira pessoa: “Ali, pela primeira vez, Matias soube que a fome e outras vontades do corpo eram feitas da mesma matéria que a fumaça.”[3]

Matias efetua uma busca por algo que sempre foge, que ele nunca consegue alcançar. O que ele procura, na verdade, jamais será encontrado no exterior. Somente ao voltar o olhar para dentro de si mesmo é que ele poderá ver o que estava encoberto pela neblina: “Os eremitas existiam ao preço de não estarem nunca em lugar algum.”[4] A narrativa é uma espécie de rito iniciático, onde a personagem terá primeiro de se descobrir, para depois entender as respostas que antes pareciam estar no mundo, mas que ele só poderá achar depois de ter parado de procurar. “De tanto procurar e não descobrir, de tanto perseguir e fracassar, Matias também viria a aprender que aquele é o privilégio de tudo o que é invisível.”[5]

Há, no conto, uma narrativa paralela, que se passa sempre numa gruta escura, habitada durante anos incontáveis por Ela, criatura incorpórea que podia penetrar na matéria compacta alheia, em organismos vivos, sentir do lado de dentro do outro o que ele sentia, mas não podia sair jamais do confinamento de sua cela. Também se pode constatar nela uma deformação na relação entre tempo e espaço, pois na gruta o espaço de sua ação é limitado, mas o tempo é infinito, podendo ser expandido e comprimido à vontade, embora preso àquele local específico, como se o mesmo instante pudesse ter durações diversas dependendo do ponto de vista e da sua própria localização espacial.

 

Logo no início do percurso entre o teto e o chão, ela se infiltrava na gota, comprimia-se no interior da sua bolha. Tomava emprestado o seu corpo e ali, por trás da pele transparente da água, experimentava o impulso da queda e do fim. Mas era breve demais aquele vôo, mal servia para iludir o seu tédio.[6]

 

Segundo Jameson,[7] o espacial assinala o pós-moderno como ideologia, cultura e representação. A memória, quando é uma experiência forte, que pode atestar ainda a realidade do passado, serve apenas para aniquilar o tempo, e com isso, o passado. Na teoria do pós-moderno figura uma suplementaridade da espacialidade, sugerindo que embora outros modos de produção sejam espaciais o nosso o foi em um sentido único, de dominante existencial e cultural, princípio estrutural, contrastando com o papel relativamente secundário que ocupou em modos de produção anteriores. A realidade pós-moderna é mais espacial do que qualquer outra. É uma espécie de compartimentalização intensificada, uma divisão do trabalho mental em suas modalidades de exploração e mapeamento de um domínio. A separação da imaginação e do conhecimento sempre foi uma conseqüência da divisão do trabalho no mundo social, agora, são as próprias funções racionais ou do conhecimento da mente que se segmentam internamente, destinando-se a andares e salas diferentes.

A infinitude do tempo e a restrição do espaço podem sugerir no conto um movimento contrário ao que Jameson depreende na “historiografia pós-moderna”. Mas semelhante aparência logo vai se desfazer. Na narrativa paralela à da trajetória de Matias, a memória se encontra compartimentada em escaninhos abertos pela erosão na parede de pedra, ou até misturada ao pó da gruta. Ela está contida em rolos de pergaminho com sinais gravados em sua superfície, que vão inevitavelmente se apagando. Lembranças, legado, experiências de visitas mais raras, sensações intrincadas, tudo reagrupado espacialmente e sofrendo o temor de ser apagado com o tempo.

A última observação deste trecho volta a trazer a sugestão do predomínio da temporalidade sobre a espacialidade, mas a esta altura já constatamos que se trata de uma temporalidade espacializada, que se expande e se comprime conforme o objeto penetrado pela criatura da gruta, Ela: “Para ela, o mundo é pequeno. Termina ali. Mas seu tempo não tem fim.” [8] A existência da narrativa paralela age provocando a expectativa de que em algum momento as duas possam se encontrar para solucionar os enigmas tanto de Matias, quanto da própria gruta, no entanto, para Matias, a solução não é externa, enquanto Ela, para permanecer, deve continuar como enigma.

“A repetição era uma lição estéril.”[9] Matias vivia num mundo mais fechado que o espaço da gruta, sempre praticando as mesmas ações e buscando encontrar os eremitas da mesma forma, assim como Ela passava o tempo esperando algo que quando acontecia durava apenas um breve instante, após o qual tudo era espera novamente.

Não havia mudanças. Ele, os animais e o pai caindo sempre nas mesmas armadilhas, que se entrecruzavam como a própria narrativa. A sensação de imobilidade, de aprisionamento era tanta, que ele “chegava a surpreender nas feições da vítima traços da sua própria fisionomia.”[10] Mas uma parte da presa sempre escapava da sua armadilha, em forma de fumaça. E era essa parte que interessava aos eremitas e seduzia o menino.

Podemos relacionar este trecho com o romance de Italo Calvino O castelo dos destinos cruzados [11], onde duas narrativas, embora independentes, parecem se entrelaçar e se completar, assim como as narrativas de suas personagens. É como se cada escolha conduzisse a trama por um caminho diferente, embora paralelo ao que foi deixado de lado. Escolher entre A taverna ou O castelo implica na escolha de um caminho, escolher entre uma carta e outra modifica este caminho, mas todos os caminhos estão entrecruzados, podendo se estreitar ou se bifurcar, e todas as imagens podem adquirir novos significados ao mesmo tempo em que pertencem a várias histórias.

 

Assim, a floresta parecia atravessada por círculos de diversas caçadas, de diferentes tipos de fome: seu pai repetia velhas ciladas para os animais, os eremitas preparavam armadilhas para apanhar a neblina, Matias sonhava um ardil para encontrar um eremita. Mais tarde, Matias chegaria a acreditar que aquelas linhas se cruzavam e que alguma armadilha, preparada dessa vez para ele mesmo, podia estar aguardando no entroncamento daqueles círculos.[12]

 

O passo em direção às transformações, à mudança, será dado por Matias quando ele conhece Conrado, o andarilho, sem casa nem família, que embora não fosse o eremita que tanto ele desejava encontrar, representava a diferença no meio da igualdade. Porque ele “Escolhia seu caminho sem a preocupação de ter de chegar a algum lugar determinado.”[13]

Conrado, envaidecido pela atenção do menino, conseguiu saber o que ele escondia do pai, o interesse pelos eremitas, assim, ensinou-o a ler e escrever “como imaginava que um eremita devia saber.”[14] E Matias começou a agir de maneira diferente, buscando agora os eremitas no seu novo conhecimento adquirido, reunindo palavras relativas às suas preocupações, que vez ou outra formavam uma frase completa. Narrativas que mais uma vez podiam ser seguidas em qualquer seqüência e sem buscar um ponto de chegada determinado conforme as andanças de Conrado.

 

Na maioria das vezes, se limitava a erguer listas de palavras. Recolhia os nomes de coisas de algum modo ligadas às suas suspeitas sobre os eremitas. Extraídas, na maior parte, das conversas de Conrado, as listas acabaram tomando a forma de um catálogo, de uma fórmula, cujo motivo e significado só Matias conhecia. Quando lidas na seqüência adequada, as listas funcionavam como um resumo dos relatos do andarilho.[15]

 

Para Foucault,[16] na obra O que é um autor?, a regularidade da escrita é permanentemente experimentada nos seus limites, estando sempre prestes a ser transgredida e invertida, desdobrando-se num jogo que vai sempre além das suas regras, extravasando-se. Não se trata, portanto, da manifestação ou mesmo exaltação do gesto de escrever, também não é a fixação de um sujeito numa linguagem, é a questão de abertura de um espaço, onde o sujeito da escrita sempre está desaparecendo. A escrita de Matias já não tratava mais da busca dos eremitas ou das andanças de Conrado, mas de um jogo ordenado de signos formando novos textos, que, recriados a partir de outras narrativas, acabavam por invertê-las e transgredi-las.

 

Ao percorrer as listas, Matias podia trazer de volta à vida versos tão repentinos e carregados de tanta poeira que, em pouco tempo, cidades inteiras terminavam cobertas e, após uma única noite, vales podiam amanhecer transformados em montanhas. Com a ajuda das listas, Matias ressuscitava neblinas tão espessas que, durante vários dias, os habitantes de uma cidade se mostravam incapazes de encontrar o caminho da própria casa e, vagando perdidos, acabavam dando por si em aldeias distantes, já dentro da casa de algum estranho. Atravessando uma ou duas frases apenas, Matias era capaz de evocar exércitos formados por milhares de homens e animais que, durante a noite, atravessavam pradarias extensas sem serem ouvidos e sem deixar rastro.[17]

 

Matias, a esta altura, já deixara de ser criança e se isolava para escrever, numa depressão de terreno na floresta, onde as trepadeiras formavam um aposento isolado. Seus rolos de papel eram escondidos dentro de um estojo de bambu em um buraco no quarto. A neblina dos eremitas agora era a fumaça que saía de seu cachimbo, mas as palavras que ele produzia eram poucas, devido ao cuidado em aprimorar a letra e acertar a escrita. Enquanto isso, na gruta, há um movimento paralelo. Um homem entra, renova a tinta do tinteiro, examina os instrumentos de escrita, os pergaminhos, e recoloca tudo no seu devido lugar. O aspecto formal é sublinhado, mas Ela vai dar sinais da sua presença, da possibilidade sempre aberta de transbordar os seus limites: “a escrita de hoje se libertou do tema da expressão: só se refere a si própria, mas não se deixa porém aprisionar na forma da interioridade; identifica-se com a sua própria exterioridade manifesta.”[18]

A vontade paralisada em Matias de encontrar um eremita dá lugar ao rancor, que vai marcar o ponto inicial da transgressão. A morte dos animais tem uma significação ritual perpétua, consciente ou inconsciente. Estão concentradas sobre ela, como signos, as necessidades de nascimento e ressurreição do ciclo da vida. Nesse ritual de representação, a transgressão não é simplesmente um desrespeito às regras, mas mostra uma autodestruição da lei por sua aplicação exagerada: “o pai montava suas armadilhas conforme o avô havia ensinado. E este, por sua vez, aprendera a lição muito antes, com o próprio pai ou avô. Essa cadeia de fidelidade não podia ter sobrevivido sem adquirir o peso de uma lei.”[19]

O homem transcende por causa de sua própria natureza, que faz com que ele sempre vá além do que lhe é concedido, posto que possui a capacidade de perceber múltiplas ordens, de descobrir um número excessivo de possibilidades. Este aspecto nos remete novamente a Foucault,[20] ao falar sobre o parentesco da escrita com a morte, trazido da tragédia e metamorfoseado em nossa cultura para o inverso de seu objetivo inicial, ou seja, ao invés da obra conferir a imortalidade passou a ter direito de ser a assassina do seu autor.

Conforme Matias avançava na sua capacidade de matar, de criar novas e mais poderosas armadilhas que não deixassem chance para as suas vítimas, perdia sua capacidade de produzir e entender as palavras. Ao invés de buscar os eremitas, ele empreendia caçadas sangrentas pela mata, destruindo tamanha quantidade de animais que não podia nem aproveitar para o sustento de sua família.

Escrever ia se tornando um ritual vazio em que palavras inteiras esqueciam o próprio significado. Enquanto isso, o pai de Matias montava a sua narrativa a respeito do filho a partir de fragmentos maiores presos nas linhas entrelaçadas, que formavam uma história incompleta mas com algum sentido. O que nos remete a uma das formas possíveis de leitura, que encontramos no romance de Italo Calvino: “A leitura é uma operação descontínua e fragmentária. Ou melhor: o objeto da leitura é uma matéria puntiforme e pulverizada.”[21]

Percebendo que o filho não era mais criança e que o tempo o traía, o pai despachou Matias em uma viagem para conduzir um rebanho de cabras até um outro povoado. Como tudo mais, o trajeto era sagrado. Os mais velhos advertiam e todos seguiam o caminho que contornava o desfiladeiro. Da mesma forma que fazia em casa, evitando encarar para o pai, o viajante mantinha os olhos baixos, desta vez para não sentir o peso do vazio acima de si mesmo.

Esta jornada aproximava gradualmente o viajante do espaço da narrativa paralela, de grutas afogadas em sombra. Já na segunda viagem, Matias desobedece as proibições, mais uma vez inaugurando um novo estado das coisas através da transgressão, mesmo a preço de se perder e ter de voltar sobre os mesmos passos. Todas as viagens seguintes foram feitas pelo caminho proibido, onde Matias acabou por inventar um jogo, que lhe proporcionava intimidade com o corpo do desfiladeiro. Quanto maior a dificuldade de acertar pedras no interior das grutas, mais estimulante isso se tornava. O temor das proibições refugiava-se agora no espaço do sonho: “No seu pesadelo, via-se vagando sem rumo em uma floresta infestada por armadilhas perfeitas, preparadas pelos avós de seus avós, que espreitavam atrás das árvores.”[22]

Esta passagem simboliza a aventura narrativa e também a da leitura, que não deixa de ser uma nova narração criada a partir da narração do texto, voltando sobre as mesmas pegadas, partindo de pontos diversos, chegando a várias conclusões, ou a nenhuma. A partir de fragmentos representados pelas pedras, o narrador ou leitor busca tocar o interior escuro das grutas do pensar, para daí depreender no reagrupamento contínuo de traços descontínuos algo que diz respeito a si próprio, refletido através das palavras.

Vejamos mais uma passagem do romance de Calvino:

 

(...) mas a cada leitura me parece estar num livro novo. Será que continuo a mudar e ver coisas que antes não percebera em outra leitura? Ou será a leitura uma construção que ganha forma reunindo um número de variáveis e não consegue repetir-se duas vezes obedecendo à mesma configuração?[23]

 

Por fim, Matias conseguiu acertar uma pedra dentro da gruta. Mais do que feliz com o êxito ficou espantado com os sons que se propagavam. É como se finalmente pudesse ouvir o próprio discurso, ainda ininteligível, simbolizado pelos sons de consoantes, que sem as vogais não formam sílabas na nossa língua. Unidades sonoras logo espalhadas pelo vento, libertas depois de muito tempo de aprisionamento e esquecimento.

Com mais familiaridade do que o esperado, ele escalou a escarpa para chegar à gruta atingida pela pedra. Mas a princípio não se reconheceu: “Incapaz de enxergar o interior da caverna, Matias também perdia um pouco a noção das imagens do lado de fora.”[24] Novamente surgiu o medo da transgressão, impedindo-o de ultrapassar a barreira da sombra. Sem penetrar na gruta, ele assustou-se com a imagem de si mesmo que reconhecia nos rolos de papel que lá estavam guardados.

Mas o que prendeu a sua atenção foram os sinais gravados na face lisa de uma omoplata de boi, porque não podiam pertencer a um boi e principalmente porque lhe eram familiares: ele podia tentar decifrá-los. Neste momento se dá o seu primeiro encontro com Ela, onde as narrativas paralelas se fundem: “no fundo da caverna a massa de sombras deu a impressão de pulsar, de querer crescer, comprimida entre as paredes de pedra.”[25] E finalmente, sem perceber, ele encontra o que tanto procurara: “Persistiu e, de repente, percebeu que já estava lendo: “Estas são as palavras secretas”.”[26] Aprender a ler, aprender a narrar, são duas faces da mesma aventura, complementares e opostas.

Distraído pelas cabras, Matias não percebeu que a grande mudança tinha se operado. As palavras que ele reproduzia em listas intermináveis de narrativas entrecruzadas como fórmulas tinham encontrado o caminho que a sua busca e as armadilhas todas não haviam conseguido capturar. Para completar o percurso, fechar o ciclo, efetuar a metamorfose, ele devia voltar para casa. Assim, o fez com toda a pressa, de quem esperara muitas jornadas. Com afunilamento das narrativas da caverna e de Matias, surgiu uma nova bifurcação, que transformou em paralela a narrativa que transcorria na casa dele.

O espaço deixado pela ausência da personagem, transformava o próprio tempo, o que confirmava mais uma vez a espacialização da narrativa pós-moderna. Enquanto Matias se reencontrava com a palavra, seus conhecimentos eram desenterrados pelos pais, que sem saber como agir, novamente os enterraram, embora isso não pudesse modificar a primeira ação.

As armadilhas de Matias, num movimento de espelho acabaram por aprisionar quem lhe concedera os instrumentos de libertação. Conforme um sacrifício ritual ao direito antigo, o andarilho deveria perder a capacidade de se locomover, paralisado para dar sua mobilidade ao outro. Quando o pai finalmente consegue ordenar sua própria narrativa descobre que não há sentido no seu achado, o filho está perdido. Numa tentativa já de antemão fracassada, ele queima os escritos do filho, libertando no entanto, a parte que interessava aos eremitas, a fumaça. É para recolhê-la que Matias precisa voltar ao lar. Terminar esta etapa, deixar o lar, desfazer-se das armadilhas e prisioneiros restantes na floresta são faces do mesmo caminho em direção à liberdade.

O movimento que a pedra jogada por Matias provocou não se deu apenas no interior da personagem, ocorreu também no interior da gruta. Neste breve instante as narrativas paralelas se uniram, formando uma só para logo após se bifurcarem novamente. Quando ele retornou ao interior da gruta, onde na verdade não tinha estado, Ela finalmente pode penetrar em toda a extensão do seu ser. A escrita, que se inicia no pensar, buscando em um único impulso lembranças, pesadelos, ódios, crimes e gritos, oferecia amplitudes desconhecidas, mas em poucos segundos já se encaminhava para o final, logo que as primeiras linhas eram traçadas no papel. Ao olhar involuntariamente para trás, Matias havia completado a metamorfose, alimentando-se de neblina, tornando-se ele mesmo o eremita que tanto buscara. Ele tinha aprendido a ler e escrever.

As “manchas de silêncio” deixadas por Rubens Figueiredo como pistas, para reconhecermos o passo em falso que nos delataria, transformaram-se em título da análise porque nos dão exatamente a imagem da necessidade falar, mesmo que as palavras tenham se tornado apenas índices do silêncio, da derrota do discurso num tempo em que ninguém mais ouve o que o outro tem a dizer. Há um eu que jamais se comunica, porque a verdadeira dor humana é incomunicável, mas o seu silêncio deixa marcas.

O fim do nosso estudo se aproxima, mas as perguntas permanecerão ainda como enigmas. Pensamos poder ter apresentado aqui uma forma nossa de lidar com a crítica e os assuntos relativos à cultura contemporânea. Trabalhar com o que ainda não é canônico sempre nos remete às lacunas em relação ao passado, que pensamos possuir, e que trazem sempre uma certa sensação de culpa, de vazio. Principalmente por vivermos em um tempo que cada vez parece estar mais acelerado e ao mesmo tempo encolhido entre tantas ocupações diversas.

Buscamos entender como funcionam as associações mentais entre textos diversos e quais os caminhos fazem com que um texto seja assimilado ou justaposto a outro em nossa mente. Por isso, a leitura de um conto que trata da descoberta da leitura e da escrita, e quais as transformações daí decorrentes. Na aventura narrativa deste conto nos encontramos com a própria aventura crítica e suas conseqüências, cada vez mais instigantes, ao mesmo tempo que disseminadas, diluídas em meio de toda a diversidade inevitável de um tempo espacializado ao extremo. O que nos levou a questionar o lugar da teoria da literatura defronte ao nosso relacionamento com as produções culturais. O recurso de usar a obra literária também como suporte teórico fez com que o movimento acontecesse de modo mais orgânico.

Esperamos ter demonstrado, em nossa leitura, a existência de traços recorrentes na narrativa de nosso tempo. O que se tentou evidenciar é o fato de que toda narrativa nasce na presença de outras, em relação e confronto com outras. Devido a isso, as referências à obras tão diversas, o que jamais vai chegar próximo do verdadeiro emaranhado intertextual em que nos encontramos, mais do que em qualquer outra época anterior. Esperamos também ter podido ressaltar a qualidade da ficção de Rubens Figueiredo, que conseguiu de uma forma poética, reconstruir as novidades que já nasciam com a vocação do declínio, um dos problemas que mais afligem o ser humano na sua busca desenfreada pelo novo e na consciência de que o novo só pode ser retirado das construções em ruínas do nosso tempo.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. 2.ed. São Paulo: Iluminuras, 1999. (col. Pólen).

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

FIGUEIREDO, Rubens. As Palavras Secretas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? 3. ed. Lisboa: Vega, 1992. (col. Passagens).

JAMESON, Frederic. Pós-Modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. 2. ed. São Paulo: Ática, 1997.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.



[1]“As palavras secretas”, p. 33

[2] “As palavras secretas”, p. 54

[3] Ibidem, p. 33

[4] Ibid., p. 34

[5] Ibid.

[6] “As palavras secretas”, p. 34

[7] JAMESON, F. (1997), p. 363-375

[8] “As palavras secretas”, p. 39

[9] “As palavras secretas”, p. 35

[10] Ibidem, p. 37

[11] CALVINO, I. (1991)

[12] “As palavras secretas”, p. 36

[13] Ibidem, p. 40

[14] “As palavras secretas”, p. 41

[15] Ibidem

[16] FOUCAULT, M. (1992), p. 35

[17] “As palavras secretas”, p. 42

[18] FOUCAULT, M. (1992), p. 35

[19] “As palavras secretas”, p. 44-45

[20] FOUCAULT, M. (1992), p. 36-37

[21] CALVINO, I. (1999), p. 257

[22] “As palavras secretas”, p. 51

[23] CALVINO, I. (1999), p. 258

[24] “As palavras secretas”, p. 52

[25] Ibidem, p. 53

[26] Ibid.